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Saudades da vida

  • dejacy4
  • 29 de jan.
  • 3 min de leitura

Absolutamente perfeito e sob medida, o viver traz, a cada um de nós, todos os obstáculos e dificuldades sem os quais não conseguiríamos crescer. Tão logo abandonamos o conforto do útero, abrindo caminho em direção à luz, conquistamos o alimento por meio do choro e nossos primeiros passos, após frequentes tombos. Passamos, aos poucos, a dominar o ambiente, insistindo em modificá-lo de acordo com nossa conveniência, o que nada mais é do que um grande engano, já que nossa mente é que vinha sendo distorcida pela forma como o mundo se organizava ao nosso redor.

Crescemos absorvendo crenças alheias, tendo nossa livre expressão pisoteada por modelos e padrões que nunca teriam sido nossos. Lamentavelmente, foi vivendo no olho do furacão que perdemos a noção da sua velocidade, porque tudo o que nos preocupava, de fato, era a ameaçadora possibilidade de virmos a ser atirados ao chão a qualquer momento. Foi assim que abraçamos a vida com temor e culpa, além de certa insatisfação.

Impiedoso, o trem dos anos atravessou nossos dias e sem pedir licença, seus trilhos abriram caminho em nosso peito, seguindo em frente sem nos dar qualquer satisfação, enquanto confusos e insatisfeitos, começamos a olhar uns para os outros na necessidade de crenças que nos dessem sustentação. Terrível erro que só nos fez colher lá fora tudo aquilo que já veio semeado dentro de nosso ser.

Ainda que tarde, foi só depois de um longo tempo nessa jornada infrutífera que começamos a duvidar do que estávamos vivendo e paramos para pensar. A consciência, então, se acendeu para nos mostrar que vivíamos uma vida que não era a nossa, mas que, ironicamente, nos foi necessária até ali para que, ao final, nos descobríssemos. Inicialmente indignados e com sensação de termos sido traídos, concluímos que não poderia ter sido diferente e que não havia mesmo como nos encontrarmos se, antes, não tivéssemos nos perdido.

Resignados, constatamos que a lei fora a mesma para todos e o preço, de certa forma, justo, pois, a macieira só gerou seus frutos quando adulta e após longos anos de espera. Na consciência de que são o seu proveito, ela, agora, há de lançar ao vento novas sementes que, não muito distante, irão se tornar outras macieiras e gerar novos frutos; tudo a seu tempo e na devida ordem, pois, mesmo ela não tem escolhas diante da criação.

Entretanto, não houve perdas e nem mesmo danos. Foi apenas a vida, exatamente como tinha que ser e ainda chegará o tempo em que dela iremos ter muitas saudades, já que, tolos que somos, só iremos parar para contemplá-la ao seu final onde disporemos, quem sabe, do olhar maduro para avaliar seus resultados.

Por que, então, não inverter essa ordem agora e parar sob a sombra da macieira, provar o seu melhor fruto, saboreando-o lentamente e de olhos fechados, lembrando-se de que, no dia seguinte, ele pode não estar mais lá, caso algum pássaro mais esperto o vislumbre pela manhã? Mais sábio do que deixar para ter saudades da vida bem lá no final, seria dividir essa saudade em pedacinhos, no dia a dia, atento a tudo; a cada maçã que nos cai nas mãos; a cada semente que, lançada ao solo, gerar um novo broto. Tão simples que parece impossível.

As crenças são suas e cabe a você decidir se irá se alimentar delas e saboreá-las agora, ou se as ignorará para que apodreçam e caiam para, somente anos mais tarde, brotarem novamente sem serem percebidas.


 
 
 

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Dejacy Lourenço . Psicólogo Clínico

CRP:0843343

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