Vergonha do que?
- dejacy4
- 29 de jan.
- 3 min de leitura

Sedução é algo que a gente inventa para chamar a atenção do outro. Elas, como que a pedir para serem beijadas, retocam a cor do batom ou, fingindo soltar os cabelos só para prendê-los de volta, erguem os braços, exibindo os belos seios. Eles, por sua vez, quando não se armam de um jeans mais justo ou de uma camisa entreaberta, procuram, ao menos, cultivar mais músculos ou mesmo uma generosa barba.
Muda o mundo, muda a moda, mas, a necessidade de seduzir permanece. Por mais que a santa ingenuidade possa vinculá-la aos hormônios ou mesmo à inerente necessidade de acasalamento, a sedução, no universo humano, transcende tudo a ser explicado pela racionalidade. Rompendo fronteiras, ela se instala em nosso ser, das mais variadas formas, bastando olhar para a rua para vermos que eles seduzem e são, com frequência, seduzidos por elas, sendo que a recíproca quase nunca falha. O mesmo pode se dar entre eles e eles ou elas e elas, já que a vida ganha novas fronteiras, lançando para o espaço as outrora tão limitadas regras, onde o excesso de limites e imposições ou, porque não dizer, a hipocrisia, cerceava o atrevimento da conquista, tão saudável ao coração humano.
Para nossa felicidade, as barreiras da vergonha e da culpa aos poucos, evaporaram de nossos pensamentos e hoje, provocante e permissivo, o flerte se permite a todo instante. Por mais que neguemos, ao comprarmos uma roupa, ao mudarmos o corte de cabelo ou aprimorarmos, de algum modo, a nossa aparência, estamos mostrando exatamente como queremos ser vistos ou interpretados. Quem nos vir dirá que somos, distraidamente, verdadeiros mapas ambulantes, indicando onde o nosso tesouro jaz escondido.
Felizmente, o tempo se rendeu à sedução e, hoje, ela já não tem mais idade, raça, cor, credo, hora e, tão pouco, lugar. Damo-nos o direito de alertar que queremos, sim, ser vistos, elogiados e - por que não? - abordados. Mais arrojada do que nunca, ela, então, não se restringe ao sexo, como, outrora, precariamente fazia-se crer.
Podemos ser seduzidos por absolutamente quase tudo, senão por tudo. Mesmo sem ser tocada, a beleza, por exemplo, seduz, ou talvez, se apenas contemplada, seduza ainda mais. A imaginação, a criatividade, o talento e a inteligência seduzem e alimentam as almas de milhões. Já, um simples olhar seduz se direcionado de modo certo a alguém certo. Entretanto, o mesmo pode se dar com o oposto, já que até o engano ou o inusitado pode seduzir.
Livres das amarras do julgamento, sobre quem quer que seja, é deixando-nos levar pela sedução que seremos apresentados aos aspectos mais profundos de nossa personalidade que permaneceram soterrados sob crenças e conceitos tão alheios ao nosso verdadeiro Eu. Ficaremos surpresos ao perceber que tudo a nossa volta pode nos seduzir se assim o permitirmos. Isso significaria olhar a vida através do enlevo, de um modo mais relaxado e descomprometido. Se agirmos assim, veremos que a vida possui opções para todos, espaço e oportunidades para quem quer que seja, desde que – é claro – estejamos abertos para tomarmos verdadeira consciência de quem realmente somos.
Riremos ao perceber que nos sentimos seduzidos por uma cor, por uma música, por um perfume e, se nos permitirmos ser ainda mais sensíveis e sem medo, por um sorriso, um olhar ou mesmo uma lágrima. Não nos apeguemos, pois, aos conceitos e definições encaixotados por uma língua qualquer. A sedução, tal qual a alma humana, é tão dinâmica que não se define em palavras. Ela pulsa, ela muda e transcende o tempo todo.
Vale, então, confiarmos no que diz o coração e no tão conhecido friozinho na barriga e seduzir a si mesmo antes de tudo, fazendo-se feliz, assumindo os próprios valores, sem esquecer que, como toda arte, a sedução jamais ocorre, jamais convence se não for autêntica.




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